Revisão do Cristianismo!

Jesus não fundou nenhuma religião nem instituiu nenhuma igreja, segundo sustentam os próprios evangelhos, e também, os grandes pesquisadores da História Cristã, desde Renan até Guignebert. Não instituiu nenhum sacramento nem procedeu a nenhuma espécie de ordenação sacerdotal. Afastado de todas as instituições religiosas dos judeus, não se subordinou a nenhuma delas e criou apenas um movimento livre e aberto de preparação do homem para um mundo de paz  e  concórdia, justiça e amor.

Nesse movimento eram admitidos publicanos e samaritanos, ladrões e cortesãs, os puros e os impuros de Israel, o que escandalizava os judeus ortodoxos e os levou a rejeitá-lo.

Pedro, apontado como o primeiro Papa, nunca exerceu essa função em Roma, e em parte alguma. Até mesmo o fato de haver estado em Roma, é hoje posto em dúvida pelos pesquisadores universitários, não havendo nenhuma prova válida da sua presença em Roma ou do seu suposto Papado. Por outro lado, não consta que Pedro se tenha arrogado, em algum momento de seu apostolado, o direito de fazer ordenações sacerdotais em seu nome ou em nome do Cristo. As palavras de Jesus a Pedro, chamando-o de pedra e dizendo que sobre essa pedra construiria a sua Igreja, são contestadas no próprio meio cristão. As Igrejas Protestantes defendem a tese de que a pedra não era Pedro, mas a revelação que ele fizera de que Jesus era o Cristo. E Pedro, na verdade, não fundou nenhuma Igreja. Participou do movimento cristão, revelando não o compreender suficientemente, como vemos por suas atitudes relatadas no Livro de Atos e nas epístolas de Paulo.

Este, sim, Paulo de Tarso, aglutinando as chamadas Igrejas dos Gentíos e ligando-as à Casa do Caminho, de Jerusalém, fundou a Igreja Cristã, desligando para isso a de Antióquia da Sinagoga local e dando-lhe a independência necessária à sua completa institucionalização. Mas Paulo não se colocou na posição de chefe da Igreja, nem procedeu a ordenações sacerdotais, recusando-se mesmo a batizar, pois segundo afirmou, só batizara uma vez e não mais voltara a .fazê-lo, porque a sua missão não era batizar, mas pregar o Evangelho. Apesar de sua formação faraisaica, Paulo de Tarso compreendeu a orientação de Jesus e não pretendeu criar uma Igreja Cristã nos moldes judáicos. Cortou o processo das ordenações, depois de haver circuncidado Apolo, o que passou a considerar como um dos seus erros..

O Cristianismo atual é muito diferente do movimento dos seguidores de Jesus, se parece muito mais com o sistema religioso sacerdotal eclesiástico judaico ortodoxo, o mesmo grupo que assassinou Jesus, o cristianismo foi uma seqüência deste, aquele foi extinto nos primeiros séculos.


Não há nenhuma possibilidade de se reajustar o Cristianismo oficializado pelo Império Romano, ao Cristianismo espiritual de Jesus. A gigantesca estrutura da Igreja é o último resíduo do Império dos Césares. Só nos resta devolver a César o que é de César e dar a Deus o que é de Deus. A pré-ciência de Jesus, confirma-se neste momento crítico da evolução terrena. O Cristianismo marginal, como viu Stanley Jones, é o único que se aproxima do Cristianismo do Cristo.

O desconhecimento dessas questões,  pelo povo é perfeitamente justificável, quando sabemos que o povo esteve sempre alheio aos estudos especiais e secretos, reservados à formação do sacerdócio, intermediário exclusivo e divino entre os pobres de espírito e os magnatas da Sabedoria Absoluta. O povo foi sempre o rebanho, ameaçado em seus farrapos de ignorância pelos cajados de ouro dos pastores de Deus. Durante séculos, os homens do povo não tiveram sequer acesso à leitura dos textos evangélicos. Para evitar as interpretações perigosas, que geravam heresias capazes de levar multidões ululantes ao fogo eterno do Inferno, os homens do povo só deviam ouvir as interpretações dos pastores dotados de sabedoria infusa e do terrível poder das maldições e das excomunhões irrever-síveis. O cheiro de enxofre do Diabo, provocava desmaios nos castelos e nas choupanas e as pegadas do Caprípede, marcavam os jardins da castelã e os trilhos do mato, que levavam a serviçal humilde e trêmula, que ia buscar a água pura da fonte. O terror do Maligno, se emparelhava com o temor de Deus. As criaturas lançadas na Terra entre essas duas ameaças, igualmente apavorantes, carregam os seus traumas através de toda suas vidas.

As vésperas da Era Cósmica, quando os homens já pisaram o chão da Lua, para espanto e pavor de tantas criaturas ingênuas, não é possível que homens de cultura superior e de  inegável capacidade intelectual, insistam na defesa de um acervo de erros e absurdos institucionalizados em nome de Deus.

As reformas iniciadas no Cristianismo Oficial assustaram os fiéis, ao mesmo tempo provocaram reações nos, clérigos leigos do meio universitário. Não se pode querer sanar essa situação alarmante, através de medidas drásticas. Não se cura em alguns dias, meses ou anos, um mal de milênios. Mas os homens carregados de responsa-bilidade cultural, estão no dever inalienável de rever suas posições e tratar de reparar os males cometidos. Justifica-se a ignorância do passado, mas não se pode justificar de maneira alguma a insistência, no presente, na sustentação desse clima de ignorância em torno de problemas fundamentais para toda a Humanidade. A inteligência tem os seus deveres a cumprir, especialmente em momentos como este que estamos vivendo. Cristãos de todas as denominações religiosas, não encalhados no cais da traição à verdade, estão sendo chamados a realizar, com urgência, a revisão necessária do Cristianismo, em defesa do Cristo traído e das multidões enganadas. E, além disso, em defesa e resguardo de suas próprias posições cristãs, porque as novas gerações que povoarão a Nova Terra e invadirão o Novo Céu do Apocalipse, não lhes perdoarão o erro fatal, cometido no passado e sustentado inexplicavelmente no presente.














Hoje, os princípios fundamentais do ensino de Jesus, se integram na realidade científica. Superada a barreira dos preconceitos, os dogmas da ignorância entraram em falência irreversível. Assistimos agora a um espetáculo grotesco. Os clérigos cristãos aderem a Simão, o mago; empenhando-se numa batalha lucrativa, através de cursos e exibições de magia teatral (pagos a tanto por cabeça), na tentativa inútil de desmoralizar os cientistas e os avanços atuais de suas pesquisas. Apresentam-se como cientistas improvisados, com títulos que não possuem e nem podem possuir, pois suas próprias exibições de pelotiqueiros, demonstram a sua incapacidade para compreender o assunto de que tratam, enquanto seu palavreado impróprio, suas explicações grosseiras e rebarbativas, sua absoluta falta de disciplina mental e de critério lógico, põem inevitavelmente a nú a sua insuficiência mental e cultural, o seu primarismo irredutível.

E enquanto isso as Igrejas se esvaziam, o materialismo avança nas sendas do desespero humano, a criminalidade individual e coletiva aumenta assustadoramente, os freios da moral se arrebentam ao impacto do erotismo e da alucinação dos tóxicos, a violência dos poderosos contra os inermes toma proporções diluvianas, e o Cristianismo Oficial nada pode fazer de eficaz em favor do mundo, porque se divorciou de suas origens e se enleou precisamente nos interesses conflitivos do mundo.


Como poderiam as Igrejas Cristãs enfrentar esta hora de transformação de um novo mundo, sob a carga mágica e mitológica dos seus dogmas e sacramentos? A grandeza conceitual do Cristianismo do Cristo, não cabe no diminuto espaço das mentes atulhadas de resíduos mágicos e míticos. Temos de fazer com urgência, a revisão de nossas posições cristãs. Os astronautas já avançam no espaço cósmico, os cientistas mergulham sem escafandro nas profundezas do Poço da Verdade, dispostos a trazê-la nua e pura à superfície do planeta, calcinado pelo fogo da mentira, da ambição e da impiedade. Esta é uma hora de reflexão, entre as imagens refletidas nos espelhos da História.


Textus: J. HERCULANO PIRES 

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